Cadernos do IUM N.º 45 - A Geopolítica dos chokepoints e dos shatterbelts (Vol. I)

Editorial

A presente obra, constituída por três volumes dos Cadernos do IUM (números 45, 46 e 47) versa os domínios da geopolítica e da geoestratégia – especificamente relacionados com chokepoints e shatterbelts –, congregando um conjunto de trabalhos realizados na Unidade Curricular de Geopolítica do Curso de Estados Maior-Conjunto 2019-2020, o que é de salientar, pois representa bem a superior qualidade e o nível de exigência do ensino neste Instituto.
Numa análise abrangente e plena de atualidade dos principais chokepoints e shatterbelts, de grande relevância para a economia mundial e para a projeção do poder militar em termos globais, os estudos agora levados à estampa analisam, ainda, os interesses das grandes potências em cada uma das áreas geográficas e as dinâmicas locais e regionais decorrentes da existência destes dois espaços geográficos sobrepostos. Uma perspetiva integral da análise essencial para melhor entender as relações complexas entre os diversos atores e, ainda, a relação entre chokepoints, em particular os que servem de entrada e saída do Mar Mediterrâneo: Gibraltar, Suez, Bab el-Mandeb, Bósforo e Dardanelos.
Felicito os autores e coordenadores desta obra e faço votos de que seja de utilidade e contribua para o enriquecimento científico e cultural de um largo número de leitores, seja no âmbito de estudos académicos ou no de uma leitura mais descontraída.
 

IUM em Pedrouços, 01 de outubro de 2020

Tenente-general Manuel Fernando Rafael Martins
O Comandante do IUM

Artigos

Cave Hic Dragones. Um Enquadramento Teórico Geral e Introdutório sobre Chokepoints e Shatterbelts e a sua (Potencial) Confluência Geopolítica e Geoestratégica

Resumo

A ambição primeira destes três volumes é a de gizar um enquadramento teórico analiticamente útil dos chokepoints e shatterbelts, e das suas potenciais formas de articulação. O presente artigo enceta este esforço, apresentando alguma da evolução histórica e concetual (a genealogia) destes dois ‘dispositivos’ potencialmente interligados – começando a pensar estas articulações em potência (ou seja, a sua arquitetura virtual) como sendo cruciais. Fá-lo, sobretudo, procurando explorar os entrelaçamentos em causa em termos de perspetivas geopolíticas e geostratégicas, nelas enfatizando as relações de poder entre atores, a partir de ângulos políticos, económico-comerciais e militares. O que não se esgota na via de um mero esforço cartográfico de mapear este ‘roteiro teórico’, nem tão só numa simples identificação de interdependências entre os dois tipos de espaços manifestamente tão diferentes entre si. As evidências empíricas permitem concluir que a construção e a identificação de uma shatterbelt está fortemente relacionada com a existência no seu interior – e/ou ao seu redor – de um ou mais chokepoints. Esta nossa conclusão não é trivial. Neste artigo de abertura sugere-se que o aumento da importância específica, mesmo se genérica, de um qualquer chokepoint determinado está, pelo menos in fieri, associado à ‘fragmentação’ da região ou área com que se articula. Dado o seu valor estratégico nas disputas por um controlo efetivo destas zonas de confluência os relacionamentos entre as potências nelas envolvidas, sejam eles cinéticos ou não, tendem a ser mais acentuados – exprimindo-se muitas vezes em formatos relacionais de mais alta intensidade. Daí, argumentamos, advém a importância destas ligações de entrelaçamento.

Palavras-chave

Chokepoint, Shatterbelt, Geopolítica-Geoestratégia, Áreas de Confluência, Entrelaçamento.

Autor(es) (*)

Avatar Armando Marques Guedes
Avatar Marco António Ferreira da Cruz
 251 | 36
O Estreito de Gibraltar

Resumo

Desde sempre, os povos que ocuparam esta região, têm atribuído grande importância à porção de terra que estrangula a ligação entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, materializada no Estreito de Gibraltar. A história das disputas pela posse de território tem marcado o ritmo das dinâmicas de relações de poder entre os Estados com interesses particulares nesta região, nela geograficamente inseridos, ou não. Esta investigação apresenta os atores principais que influenciam este chokepoint, as dinâmicas de poder entre si, ocasionalmente afetadas por tensões no campo político, militar económico e diplomático, bem como os desafios securitários a que estão sujeitos pela proximidade com regiões potencialmente instáveis, com reflexos ao nível regional e global.

Palavras-chave

Estreito de Gibraltar, Chokepoint, Shatterbelt.

Autor(es) (*)

Avatar David Carpio Sánchez
Avatar Luís Manuel Coelho Fernandes
Avatar Tiago Ramos da Graça Silva Nunes Páscoa
 234 | 38
Estreito de Bering e os Dois Trajetos Árticos (NSR e NWP)

Resumo

Com a profunda transmutação a que se encontra sujeita a Região do Ártico, mormente a redução da superfície de gelo, os trajetos Árticos afiguram-se cada vez mais como rotas marítimas viáveis. Simultaneamente, o Estreito de Bering, local onde convergem esses trajetos, assume paulatinamente características próprias de um chokepoint. Tais alterações, têm fomentado o recrudescimento de disputas entre diversos atores na região, através das quais alguns atores procuram legitimar, entre outros, a exploração dos recursos naturais existentes e o controlo dos Trajetos Árticos. Assim, o objetivo do presente artigo é realizar uma análise geopolítica e geoestratégica do Estreito de Bering e dos Trajetos Árticos. Nesse desiderato, são identificados os principais atores (Rússia, Estados Unidos da América, Canadá, China, Dinamarca e Noruega) e os seus interesses na região, assim como as dinâmicas de poder existente entre estes, com especial ênfase no domínio político, económico e militar, no intuito de identificar e entender as eventuais conflagrações de interesses existentes. A investigação foi desenvolvida com base em análise documental de artigos científicos e trabalhos de investigação bem como de documentos oficiais, como tratados, relatórios intraestatais e de organizações internacionais. O artigo desenvolvido permite concluir que as oportunidades e as ameaças percebidas relativamente à recessão do gelo no Ártico, assim como as ações desenvolvidas por alguns atores na Região do Ártico, têm vindo a induzir relações de conflitualidade entre os principais atores globais com interesses na região, materializadas no aumento de disputas, reivindicações territoriais ou até na militarização da região. Não obstante, todos os atores nas suas estratégias particulares para a região do Ártico, continuam a asseverar a necessidade de manter um clima de paz na região, assente no diálogo e na cooperação.

Palavras-chave

Estreito de Bering, Trajetos Árticos, Rota Marítima do Norte, Passagem do Noroeste.

Autor(es) (*)

Avatar Orlando Filipe Abelha de Garcia Pereira Libório
Avatar Tiago Filipe Abreu Moura Guedes
 227 | 42
Estreitos da Tartária e de La Pérouse

Resumo

A Geopolítica procura referências geográficas que permitam esclarecer as relações de poder dos atores do Sistema Internacional, oferecendo “formas de olhar para o Mundo” na procura de o compreender, estando sistematizada a forma como o concretiza. Tendo por base o tema geral “A Geopolítica dos chokepoints e das shatterbelts”, este trabalho é dedicado ao estudo geopolítico dos Estreitos da Tartária e La Pérouse, numa região que dá sinais de se estar a transformar no centro de gravidade económico a nível mundial – a região da Ásia-Pacífico – e que se encontra sujeita à influência das grandes potências que lhe estão próximas: Rússia, Japão e China, e dos “omnipresentes” Estados Unidos da América. Assim, partindo da caracterização geográfica dos estreitos, foram abordados os fatores geopolíticos/geoestratégicos, e as influências políticas, económicas e militares da interação dos vários atores. Decorrente da caracterização e do estudo efetuado a montante, o presente trabalho debruçou-se, então, sobre as “dinâmicas geopolíticas” nos espaços em estudo e áreas circundantes, que envolvem quatro atores essenciais – Rússia, Japão, China e EUA – tendo sido analisadas as relações de influência, de conflito ou de interesse existentes entre si.

Palavras-chave

Chokepoint; Estreito da Tartária; Estreito de La Pérouse; Ásia-Pacífico.

Autor(es) (*)

Avatar Bruno Vicente de Barros Cardoso Ribeiro
Avatar Luís Filipe Marques dos Santos Conceição
 227 | 41

(*) NOTA: A ordem alfabética de apresentação dos autores pode não corresponder à ordem formal que se encontra no artigo.