Revista de Ciências Militares - Vol. III, Nº 2

Editorial

Celebrando o terceiro ano de existência, esta publicação prossegue a senda de consolidação do estatuto de referência lusitana no que se refere à divulgação, nacional e internacional, em língua portuguesa e na língua franca inglesa, de textos científicos relativos aos elementos nucleares das Ciências Militares – Segurança e Defesa.

Neste número 2 do seu volume III (novembro 2015), a Revista de Ciências Militares (RCM) ensaia o modelo do dossiê temático, não esgotando porém, nessa fórmula, o seu conteúdo eclético e multidisciplinar.

Assim, a presente edição da RCM integra um dossiê subordinado ao tema da liderança que inclui sete artigos elaborados por militares dos três ramos das Forças Armadas, corporizando a investigação desenvolvida no quadro do Curso de Estado-Maior Conjunto ministrado no Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM). Nesses textos é tratada uma larga panóplia de aspetos relevantes do fenómeno da liderança, nomeadamente a liderança estratégica, a liderança operacional, a adaptabilidade da liderança, a liderança transformacional, a liderança em ambiente de stress e a relação da liderança com o instrumento disciplinar militar.

Para além do assinalado dossiê temático, esta edição da RCM inclui quatro artigos científicos adicionais, da autoria de investigadores militares portugueses e de um investigador oriundo da República Federativa do Brasil, os quais tratam as temáticas do papel da GNR na futura estratégia de segurança interna na União Europeia, da conceptualização, aplicação e prospetiva do EU battlegroup, das perceções na sociedade civil portuguesa sobre a Força Aérea e do rearmamento militar da América-Latina na última década.

Finalmente, esta edição da RCM oferece também duas recensões de obras de autores que são referências incontornáveis do universo dos estudos de segurança e da história militar: o norte-americano Michael T. Klare e o britânico John Keegan.

A seleção de textos do número 2 do volume III da RCM, como resulta da sintética apresentação do seu conteúdo atrás indicada, prima pela inegável atualidade, interesse e valia científica, razão pela qual decerto constituirá um excelente contributo para o desenvolvimento do conhecimento de todos quantos se interessam por esta específica área do saber.

Desejo a todos uma proveitosa leitura.

TGEN Rui Manuel Xavier Fernandes Matias

Artigos

Natureza da liderança estratégica: revisão conceptual e enquadramento nas Forças Armadas

Resumo

O presente estudo analisou diferentes domínios da liderança estratégica, tendo como objetivo identificar contributos para a sua adequação ao contexto organizacional do século XXI. Na análise do conceito de liderança estratégica resultou a identificação de oito dimensões do conceito e de dois paradigmas organizacionais: “flexibilidade versus controlo” e “ambiente interno versus ambiente externo”. O estudo do contexto organizacional identificou a volatilidade, a incerteza, a complexidade, a mudança e o ritmo acelerado dos acontecimentos como as principais caraterísticas que exigirão competências específicas aos líderes de topo da Organização Militar. Foi adotado o modelo dos valores contrastantes que permitiu interligar os paradigmas organizacionais com a cultura da Organização. Os resultados indicam que a Organização possui na situação presente uma forte cultura hierárquica, e que a cultura adocrática é a que mais se destaca na situação futura. Os valores que caraterizam esta cultura são os que melhor permitem a adaptação das organizações ao contexto do futuro. Concluiu-se que a adequação da liderança estratégica da Organização ao século XXI deverá incluir uma mudança da cultura organizacional, aproximando-se dos valores adocráticos. Deve também incluir uma capacidade específica de informação e prospetiva estratégica que estude as tendências e os cenários macro estratégicos.

Palavras-chave

Liderança estratégica; Líder estratégico; Cultura organizacional

Autor(es) (*)

Avatar Ana Maria Carvalho Ferreira da Silva Correia
 306 | 37
Perceções na sociedade civil portuguesa sobre a Força Aérea

Resumo

Este estudo teve por objetivo perceber como é que a informação se associa às perceções (conhecimento e processo de construção individual) na sociedade civil Portuguesa sobre a Força Aérea Portuguesa (FAP), utilizando a metodologia preconizada pelo Instituto de Estudos Superiores Militares, designadamente o Método de Investigação em Ciências Sociais de Quivy e Campenhoudt (1998). Em termos de resultados: (i) a informação associouse à perceção da franja da sociedade civil estudada (amostra de 106 alunos de três cursos de ensino superior), consoante a capacidade deste ramo para despertar atenção e a utilidade com que é percebida quer a sua existência, quer as missões operacionais que realiza e divulga; (ii) a frequente divulgação de notícias sobre missões acabadas de efetuar tem um efeito cumulativo sentido como muito positivo; (iii) as associações supracitadas mostraramse potenciáveis consoante o meio de comunicação utilizado, o tipo de missão operacional realizado e o teor/conotação – neutro, positivo ou negativo – da notícia divulgada; (iv) divulgar informação pertinente sobre a FAP, tem como mais-valia adicional o aumento do grau de conhecimento e o colmatar de falhas ou faltas na forma como é compreendida a envolvente castrense.

Palavras-chave

Comunicação, Força Aérea Portuguesa, Imagem, Informação, Notícia, Perceção.

Autor(es) (*)

Avatar Cristina Paula de Almeida Fachada
 301 | 43
Uma corrida armamentista na América-Latina? Uma abordagem subsistémica ao rearmamento militar na última década

Resumo

O rearmamento militar na América Latina na última década levantou uma série de hipóteses a respeito de uma possível corrida armamentista na região. A possibilidade foi prontamente descartada em favor de um quadro de balanceamentos leves e considerações estratégicas. No entanto, a produção no tema pouco explorou se o rearmamento era, de fato, latino-americano ou mais presente em subregiões menores e, ademais, ainda é preciso discutir os desdobramentos deste fenômeno na prática política da região. Para tanto, esta pesquisa se utiliza do banco de dados de transferência internacional de armas do SIPRI, Stockholm International Peace Research Institute, com objetivo de observar o volume de armas efetivamente importado por Estados, junto de uma abordagem de subsistemas regionais para realizar análises qualitativas a respeito da conjuntura política da região.As conclusões apontam para um fenômeno muito mais expressivo, tanto no volume de importações de armas quanto na conjuntura política, na América do Sul do que na América Latina como um todo. Outro resultado é a indicação de que os novos recursos militares dos Estados foram convertidos em poder de barganha para ações diplomáticas mais assertivas,além de permitir maior prontidão para tratar de questões de segurança para ou intraestatais.

Palavras-chave

América Latina; geopolítica regional; rearmamento militar; crises de segurança regional; organizações regionais.

Autor(es) (*)

Avatar Carlos Gustavo Poggio Teixeira
Avatar Rodrigo Moura Karolczak
 303 | 40
Liderança operacional: Competências nucleares

Resumo

O crescente ambiente de incerteza e complexidade com que as forças militares se deparam nas modernas operações militares em ambiente operacional, exigem que o líder militar demonstre adaptabilidade e seja eficaz na sua atuação. No decorrer do exercício da sua liderança são diversas as condições, circunstâncias e fatores que influenciam e afetam as suas decisões. Liderar em ambiente operacional exige líderes capazes de compreender e avaliar rapidamente as situações e tomar decisões eficientes. Hoje mais do que nunca, o papel do líder como gestor do stresse operacional da sua unidade e dos seus homens é determinante e, leva a que ele seja detentor de determinadas valências que lhe permitam lidar eficazmente com situações adversas e ter sucesso. São inúmeros os desafios e tendências para os quais os líderes terão de estar preparados num contexto operacional futuro. Daí que a formação de um líder para atuar em ambiente operacional constitua um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento das suas competências. Neste sentido, este artigo tem como objetivo identificar um conjunto de indicadores e competências nucleares que potenciam o desempenho do líder e que mais contribuem para a eficácia da liderança em ambiente operacional.

Palavras-chave

Ambiente Operacional, Competências, Indicadores, Eficácia, Líder, Liderança Operacional.

Autor(es) (*)

Avatar Hugo Miguel Moutinho Fernandes
 307 | 45
Natureza da liderança operacional: revisão conceptual, enquadramento e competências nucleares

Resumo

O estudo da liderança e competências associadas são temáticas que despertam elevado interesse nas organizações e no mundo académico. As competências de liderança em contexto organizacional reúnem um conjunto de aptidões e comportamentos que contribuem para desempenhos superiores. A abordagem conjugada dos conceitos de liderança e de competência permite às organizações identificar e desenvolver líderes, definindo e comunicando os requisitos de liderança. Este estudo baseou-se numa estratégia mista, conjugando questionários, entrevistas e pesquisa bibliográfica. O objetivo geral consistiu em identificar as competências nucleares dos líderes operacionais do Exército Português, recorrendo para o efeito, ao modelo de competências nucleares do Exército Norte-Americano. Apurou-se que sete das oito competências nucleares são aplicáveis. Face ao modelo apresentado que deverá ser testado em contexto organizacional, deve ser equacionada a inclusão de outros modelos e uma mudança do paradigma da gestão tradicional de recursos humanos funcional, para um modelo baseado em competências.

Palavras-chave

Competência nuclear, competências, KSAO, modelo de competências.

Autor(es) (*)

Avatar Duarte Miguel de Carvalho Cigre
 288 | 39
Stressores em operações militares modernas: a influência da robustez psicológica e do apoio percebido no processo de liderança

Resumo

A guerra é das atividades mais antigas de que há registo na história da humanidade e para aqueles que nela combatem constitui uma das mais arriscadas e stressantes experiências que é possível imaginar, dadas as vicissitudes que lhe subjazem e que, em última análise, podem colocar em risco a própria vida. A tipologia atual dos conflitos, bastante diversa das guerras “clássicas” do passado, trouxe um ambiente operacional diferente, caraterizado essencialmente pela complexidade, incerteza e imprevisibilidade, particularidades estas que fomentam o surgimento de stress e outras patologias, ao nível psicológico, nos combatentes. A investigação permite concluir que caraterísticas como a robustez psicológica e a eficácia da liderança desempenham um papel determinante na atenuação dos stressores presentes em ambiente de operações militares modernas, bem como na redução dos níveis de stress dos militares, embora de forma diferenciada em cada um dos ramos das Forças Armadas. Outra interessante conclusão retirada da investigação é a de que existem diferenças significativas entre os três ramos das Forças Armadas, em ambiente de operações militares modernas, no que toca à valorização que é atribuída pelos subordinados a aspetos como a robustez psicológica dos seus líderes.

Palavras-chave

Apoio Percebido, Liderança, Resiliência, Robustez Psicológica, Stress, Stressor.

Autor(es) (*)

Avatar Bertolino Miranda Ferreira
 313 | 43
Operações militares modernas: adaptabilidade, um requisito de liderança

Resumo

O presente artigo pretende ser um contributo para um melhor entendimento dos requisitos da adaptabilidade dos líderes às operações militares modernas. Assim, o objetivo principal da investigação é identificar os requisitos de adaptabilidade dos líderes face às novas exigências e contribuir para o seu desenvolvimento em operações militares modernas. Para tal, procurou-se identificar as principais mudanças e alterações nas operações militares e no ambiente operacional onde decorrem.A abordagem segue uma metodologia qualitativa por entrevista a militares que exerceram funções de comando nos teatros de operações do Afeganistão ou do Kosovo e uma quantitativa com recurso ao questionário adaptado por nós mas desenvolvido por Pulakos, et al. (Adaptability in the Workplace: Development of a Taxonomy of Adaptive Performance, 2000). A análise das entrevistas e dos questionários indica que as dimensões de adaptabilidade propostas por Pulakos et al. (Adaptability in the Workplace: Development of a Taxonomy of Adaptive Performance, 2000) são requisitos de adaptabilidade do líder face às operações militares modernas (caraterizadas pela imprevisibilidade, pelo risco e potenciais ameaças) a que os militares estão expostos. A análise dos resultados dos questionários permite verificar que a frequência de exposição às dimensões de adaptabilidade foi baixa quer para os líderes dasForças Armadas e da GNR.

Palavras-chave

Liderança, Operações Militares, Dimensões de Adaptabilidade.

Autor(es) (*)

Avatar Luís Carlos Gonçalves Rodrigues
 298 | 38
Liderança transformacional numa organização em mudança: um estudo de caso no Exército Português

Resumo

A liderança assume-se como um dos principais ativos das organizações e a liderança transformacional tem sido identificada como uma forma eficaz de encarar os processos de mudança organizacional, pois, na sua forma mais pura, trata sobre liderar uma organização através da mudança. O tema central deste trabalho é o estudo da liderança transformacional e a sua relação com a mudança organizacional, em contexto militar. Para tal, escolhemos como caso de estudo a Escola das Armas, Unidade de formação de quadros do Exército Português, recentemente criada fruto da fusão váriasUnidades, estando assim sujeita a um profundo processo de mudança, com reflexos individuais e organizacionais. Recorreu-se à aplicação de dois instrumentos de recolha de dados por questionário, no sentido de avaliarmos de que forma o estilo de liderança exercido pelos chefes diretos tem influência no processo de mudança organizacional em curso naquela Unidade. Os resultados obtidos permitiram concluir que, os militares da Escola das Armas percecionam nos seus chefes diretos maioritariamente traços de liderança transformacional, e que tal se constitui num fator influenciador na forma como percecionam o processo de mudança em curso e estão predispostos para tal.

Palavras-chave

Liderança transformacional, Mudança organizacional, Escola das Armas.

Autor(es) (*)

Avatar César Miguel Santinho Garcia
 297 | 37
A liderança e o exercício da competência disciplinar

Resumo

O tema da liderança assume cada vez mais um papel fulcral, nas organizações bastante hierarquizadas como é o caso das Forças Armadas. Nesse sentido os militares exercendo cargos de comando integram cada vez mais, de forma inata ou adquirida, os conceitos e técnicas de liderança. A estes militares, é-lhes atribuída legalmente a faculdade da competência disciplinar, que tem a sua principal materialização na atribuição de recompensas e aplicação de penas (castigos). Atendendo a estes dois conceitos (liderança e competência disciplinar), o presente estudo exploratório, seguindo uma metodologia quantitativa teve como objetivo abordar a forma como se relacionam e avaliar como interagem. Optando-se pelos estilos de liderança da teoria de “Banda Larga”, verificou-se que é no estilo de liderança transformacional que os comandantes mais se revêm, sem contudo descurar o estilo transacional. E é nos comandantes transformacionais que melhor se evidencia a forma como exercem a competência disciplinar.

Palavras-chave

Liderança transformacional, liderança transacional, liderança laissez-faire, competência disciplinar, recompensas, penas.

Autor(es) (*)

Avatar Paulo José Neves Correia
 291 | 41
A futura estratégia de segurança interna na União Europeia (2015-2020) e o papel da GNR

Resumo

O presente trabalho desenvolve-se em torno da problemática da futura Estratégia de Segurança Interna da União Europeia e do papel que a Guarda poderá vir a ter na mesma. Para o desenvolvimento da nossa investigação a metodologia utilizada foi feita através do recurso a análise bibliográfica, de fontes primárias e secundárias, de caráter teórico-analítico e institucional. Através do presente estudo foi possível explicar a evolução da segurança interna da União, identificar e analisar as principais linhas de continuidade e as eventuais novidades da futura Estratégia, da ligação desta(s) com os objetivos estratégicos da Guarda e do papel que esta poderá ter no âmbito da mesma. As principais conclusões do trabalho permitem-nos afirmar que a Guarda poderá ter um papel central no âmbito da futura Estratégia, nomeadamente no âmbito das questões ambientais, de segurança das fronteiras externas, de gestão de crises, e na componente de formação/investigação/cooperação.

Palavras-chave

Estratégia, Segurança Interna, União Europeia, Portugal, GNR.

Autor(es) (*)

Avatar António Marcelino da Silva
Avatar Carlos Eduardo Patronilho Rodrigues de Queiroz
Avatar João Eduardo Cordeiro Gonçalves
Avatar Jorge Alexandre Ferreira da Costa
Avatar Pedro Miguel Alves Barrete
Avatar Reinaldo Saraiva Hermenegildo
 331 | 44
O EU battlegroup: a sua conceptualização, aplicação e prospetiva

Resumo

A União Europeia (UE) tem desenvolvido iniciativas e atividades no sentido de se afirmar, no contexto internacional, como um credível produtor de segurança. Os anos noventa do século passado foram prolíferos em acontecimentos, que levaram a Europa a olhar para o seu interior e a refletir sobre as suas responsabilidades, no contexto de crises. A conflitualidade emergente em 1991, na ex-Jugoslávia e em 2003, na Macedónia e na República Democrática do Congo, impuseram à UE a convicção da carência de uma Força, impulsionadora da sua Política Europeia de Segurança e Defesa, atual Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD), que lhe permitisse intervir, em tempo e com credibilidade, quando surgissem crises, no seu seio ou vizinhanças. Assim, surgiu o Battlegroup, unidade modular, flexível, capaz de conduzir uma panóplia de operações, visto como um instrumento capacitado para a gestão de crises. Este trabalho analisa a evolução do conceito dessa Força, identificando a sua importância, atual e no futuro. O Battlegroup é hoje umaferramentaimportante no contexto da PCSD, assumindo a importância que os Estados-Membros da União lhe queiram dar, mas a ausência de empenhamentos colocam dúvidas sobre o seu futuro e formas de utilização.

Palavras-chave

União Europeia, Battlegroup, Política Comum de Segurança e Defesa.

Autor(es) (*)

Avatar Francisco Xavier Ferreira de Sousa
 284 | 38

(*) NOTA: A ordem alfabética de apresentação dos autores pode não corresponder à ordem formal que se encontra no artigo.